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| Foto de: Chico Ludermir. |
Precisamos falar sobre bullying.
Eu não lembro a primeira vez em que sofri bullying, mas lembro os mais “marcantes”, ou seja, os mais sofridos.
Desde criança eu era alvo de piadas homofóbicas/transfóbicas. Era tratada como: “viadinho da sala”, “que gosta de brincar de bonecas”, “que só quer ficar com as meninas”, “que não joga futebol”, “que ninguém escolhe para algum time na educação física” e “que não tinha dupla para as atividades na escola”.
Hoje, assisti um documentário na netflix chamado “Bullying” que mostrava a realidade de algumas escolas nos Estados Unidos, onde alguns garotos (as) sofriam bullying.
No documentário vários casos foram mostrados. O de um garoto que era chamado “Cara de peixe” e sofria constantes agressões dos “colegas” de sala, o de uma garota lésbica que foi humilhada por seus professores, mostraram também dois casos de garotos pequenos, sim, pequenos, que cometeram suicídio, um desses garotos tinha apenas 11 anos e decidiu tirar a própria vida porque não aguentava mais sofrer na escola.
O que mais me assustou, porém não me surpreendeu, foi o fato da escola não tomar nenhuma atitude, pois TODOS, sem exceção, procuraram pela direção e contaram as agressões, e quase nenhuma escola tomou uma atitude em relação a isso, e quando tomava não era o suficiente.
Eu lembro o quão difícil era para mim ir para escola, só minha mãe e eu sabemos o tanto de noites em que eu chorei porque não queria acordar no outro dia para ser maltratada na escola.
Tiveram três casos bastante marcantes para mim, o primeiro foi quando eu era 5 ou 6 série e o sinal para sair do recreio e voltar para as salas de aula tinha tocado e eu estava subindo as escadas quando dois garotos me empurraram escada abaixo, um disse “boiolas vão atrás” e o outro, que é primo dele, me empurrou.
Eu lembro o tanto que chorei, não apenas pelo acontecido, mas por não entender o porquê que eu era motivo de vergonha, ou de ser empurrada uma escada abaixo. Eu tive vergonha. Vergonha de contar para minha mãe, de contar para a coordenadora, eu tive vergonha do que aconteceu, porque naquele momento senti que eu não merecia estar viva, então, eu entendo o porquê nós, crianças e adolescentes, pensamos em suicídio, muitas vezes doí demais o que acontece, e se você realmente não tiver um apoio em casa, ou na escola, é mais “fácil” tirar sua própria vida do que ter que sofrer todo dia.
Minha mãe é meu anjo, porque todo dia eu sabia que voltando pra casa eu ia ter um ombro para chorar, eu sabia que ia ter alguém para me ouvir. Ela sempre tentou me proteger de tudo, mas, todos nós sabemos, que isso não é possível. Mas e aqueles que não tem essa mãe? Ou esse pai, ou tia ou qualquer outra pessoa para desabafar, o que eles devem fazer?
O outro caso foi quando eu era oitava série, e as eleições para representante de sala já tinham passado. Um dos representantes teve a ideia de fazer uma caixinha com dicas de como melhorar o comportamento da sala. A caixinha foi feita, e no final da aula de português, ele ia tirar os papéis da caixa e ler para turma. Um dos últimos papéis tinha escrito “tirar o viado da sala”. Eu lembro que imediatamente sai da sala e fui, chorando muito, falar com a coordenadora. Minha mãe foi no colégio e ameaçou inclusive processar o colégio se nada fosse feito.
A atitude tomada foi o professor de filosofia dar uma aula sobre homofobia, o que na época deu até certo.
Já o último caso mais marcante para mim, é um dos posts mais visualizados aqui no blog, o “Humilhação No Colégio”.
Mas não é só isso, eu sei que amigos (as) meus sofrem/sofreram bullying no colégio, como meu amigo trans que não pode usar o vestiário masculino na escola e é obrigado a esperar todas as meninas sairem do vestiário para ele poder se arrumar. Não só isso como também tive amigas que eram constantemente agredidas verbalmente por serem gordas.
O que temos que refletir é, o que estamos fazendo para essas crianças e adolescentes?
Por que estamos deixando vários jovens chorarem todo dia após a escola? Por que tem tantos jovens hoje em dia usando anti-depressivos, ou que se cortam ou até mesmo que já se suicidaram?
Quem não está numa escola que o defende, ou numa família em que ele pode ser ouvido, o que esse jovem pode fazer para se sentir melhor?
Foi doloroso assistir esse documentário e relembrar as coisas que eu já passei, mas é mais doloroso ainda eu receber centenas de mensagens na página do meu blog pedindo ajuda porque estão sofrendo homofobia, transfobia, ou outras agressões na escola e não sabem o que fazer ou com quem contar.
Isso precisa mudar, precisamos de leis, precisamos de diretores que tomem atitudes, precisamos de professores que não exponham seus discursos de ódio disfarçados de “apenas minha opinião” e constranjam algum aluno. Não é normal um aluno ser agredido e seu agressor ficar impune. Por que tem tantos jovens hoje em dia com medo de ir para escolas? Por que eu, depois do meu intercâmbio, não queria voltar ao Brasil por medo de entrar em alguma escola?
Não que as escolas nos Estados Unidos sejam perfeitas, mas pelo menos as que eu estudei, eu me senti muito segura, até porque nas duas escolas que eu frequentei durante meu período de intercâmbio, tinham outras pessoas trans, e tinha também um clube lgbt em uma das escolas.
Bullying não passará.
Seja forte. Depois de uma tempestade vem um arco-íris. Não importa o que te disserem você é forte, é bonito, é amado.
Se precisar de ajuda, pode contar comigo.
Existe também o CCV ( “CENTRO DE VALORIZAÇÃO A VIDA” ), você pode entrar no site e receber ajuda tanto por telefone, quanto por internet, http://www.cvv.org.br/.
Stay Strong!
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