1 ano em que finalmente pude ser eu mesma:

16:16

Arquivo Pessoal

Hoje, 25/08/2015 faz um ano.

Um ano em que depois de dezesseis pude finalmente ser eu mesma.

Em que não precisei mais me esconder.

Em que minha vida e minha auto-estima melhoraram cem por cento.

Em que tudo mudou.

Faz um ano que eu me senti obrigada a sair do país para poder ser eu mesma.

Faz um ano que tive a oportunidade que outras pessoas trans não tem.

No dia 25 de agosto de 2014 eu fiz intercâmbio para os Estados Unidos, sendo essa a única maneira que senti que podia ser eu mesma.

Ter que sair do país, da casa da minha mãe, da minha cidade natal, sair de perto de toda minha família e amigos, deixar tudo de lado atrás de objetivos que nem eu sabia como iria alcançar.

Apenas queria ser Anne, quem eu sempre fui, pelo menos por um tempo.

Minha experiência nos Estados Unidos, apesar de conturbada, foi literalmente a melhor coisa que já aconteceu na minha vida.

Pela primeira vez eu pude sentir o gosto da liberdade.

Tentem entender o que é isso, o que é ter que se forçar a ser de tal jeito, vestir tal roupa, falar de certo modo, tentem entender o que é sentir liberdade pela primeira vez depois de dezesseis anos.

Dezesseis anos aprisionada em um corpo que você não se sente confortável.

Dezesseis anos de luta diária para tentar se entender e entender o porquê que uma tarefa simples de ser você mesmo(a) é uma luta diária para conseguir alcançar seus objetivos.

Nos Estados Unidos, quando pude ser eu mesma, senti o que era felicidade, o que era liberdade, coisas simples como comprar uma roupa ou maquiagem, vestir um determinado tipo roupa ou pintar as unhas se tornaram as melhores atividades do meu dia-dia.

Apenas um “você está linda”, “licença senhora”, “bom dia, querida” era o suficiente para me deixar feliz pelo resto do dia.

Ouvir minha mãe falar “te amo, filha” me derramava em lágrimas.
Ver que finalmente fui reconhecida por quem eu sempre fui era o meu maior desejo que foi realizado.

Escutar minhas tias e meus primos me chamando de Anne me trazia uma sensação inexplicável de felicidade infinita, poder compartilhar dicas de maquiagem e roupas e falar sobre garotos com minhas amigas era a mesma sensação que você tem de poder beber água depois de estar muito tempo com sede e com a boca seca

Voltar ao Brasil não foi fácil, principalmente por saber que teria que ingressar em uma nova escola, onde no Brasil a porcentagem de pessoas trans na escola é mínima.

Afinal não poder usar o banheiro que você se identifica com, não poder usar seu verdadeiro nome, não ter sua identidade respeitada, não ser respeitada pelos professores, alunos, funcionários dentre tantos é um sofrimento diário para nós.

As pessoas não entendem (ou não querem admitir) que a responsabilidade É NOSSA de existir tanta trans e travestis na rua.

A responsabilidade é nossa quando soltamos uma piadinha transfóbica.

A responsabilidade é nossa quando rimos daquela travesti na rua por ter uma aparência mais masculina ou uma voz mais grossa.

A responsabilidade é nossa quando expulsamos elas de ambientes que deveriam ser para todos, quando ao invés de tentar entender o que é considerado “diferente” ignoramos e desdenhamos.

Voltei no início de fevereiro e entrei na minha nova escola no final de março.

Foram dois meses procurando escolas, várias disseram que não tinham mais vagas ao saber que a nova aluna seria trans, outras disseram que não podia mais entrar alunos depois que as aulas já tinham começado e outras apenas disseram que iam retornar a ligação algum dia.
Algum dia.

Depois de praticamente dois meses procurando uma escola, entrei no colégio.

Um dia antes passei a noite e madrugada chorando de medo.

Medo de que tudo isso que acontece com várias irmãs trans acontecesse comigo.

Medo de ser mais uma na estatística de adolescentes trans que se suicidam por bullying.

Ao contrário do que pensei, tive uma aceitação de certa forma grande, considerando que no máximo pensei que podia ter apenas um ou dois colegas.

Situações constrangedoras aconteceram também, o que é realidade na vida de qualquer pessoa trans, não se pode negar isso.

Já desrespeitaram minha identidade.

Já não me quiseram no mesmo banheiro.

Já inventaram e falaram coisas sobre mim.

Inclusive, recentemente, uma garota me falou que me admira por ser corajosa mas que quem luta por mim de verdade são minha amigas e não eu.

Certamente, consigo ver o tamanho da ignorância da pessoa sobre esse assunto para me falar isso. 

Não desconsidere a luta de alguém se você não sabe afundo sobre o assunto.

Por fim, antes de falarem seus achismos, pensem na luta do outro.

Tarefas como ir na padaria, andar sozinha na rua, entre outras coisas podem virar pesadelo na vida de uma pessoa trans por causa dessa sociedade cheia de pre[con]ceitos, da sociedade que mais mata pessoas trans no mundo, onde a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos.

Onde 8 entre 10 pessoas trans tem Síndrome do Pânico e/ou Depressão por viver uma vida aprisionada e, quando finalmente se liberta, recebe o ódio da sociedade.

Hoje faz um ano.

Um ano em que me libertei.

Um ano em que finalmente pude ser Anne.

Pude ser eu mesma.

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8 comentários

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    1. A página do blog já está no ar, já podemos conversar, e se você quiser, curti lá :), muito obrigada por ter comentado aqui, fico grata pela visita no meu blog, muito obrigada por todo apoio <3
      https://www.facebook.com/transtornada.blog/?ref=aymt_homepage_panel

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  2. Seu blog tem um visual bastante clean. Foi tudo ideia sua? Eu gostei muito! Vc também escreve legal.
    Concordo com a maioria das coisas que vc se propõe a escrever, e o que discordo respeito, pq seus argumentos são muito sóbrios.

    Boa sorte na sua jornada Anne!

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  3. Deixo aqui essa mensagem expressando meu enorme respeito por ti, Anne.

    Eu, como homem cisgenero hetero, tenho meus direitos violados diariamente por apenas ter cabelo comprido e por isso posso apenas imaginar por o que passas.

    Aplaudo de pé tua coragem, tua força, e como professor eu prometo que lutarei durante a minha vida inteira para fazer da sociedade um lugar melhor para aqueles não heteronormativos.

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  4. Anne, por favor, me envie um email (para ozielrodrigueschaves@gmail.com).
    Tentei te adicionar no face, mas não consegui. tenho algo importante pra te falar. Beijo , linda :)

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