Minha história: Depois do intercâmbio e antes de entrar em uma escola de Recife

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Arquivo Pessoal
Ano passado eu decidi que eu tinha que começar a ser eu mesma, a ser Anne, só que eu não sabia como, afinal não é "fácil" como as pessoas falam, não é somente por uma roupa, uma maquiagem e tá tudo certo, é bem diferente disso, antes de tudo vem a autoaceitação, mas não é só isso.

Eu me perguntava em que tipo de ambiente eu iria poder ser Anne, somente em casa onde parte da minha família me aceita?

Na escola eu não podia, afinal lá nunca foi um ambiente acolhedor para mim, pois ser empurrada escada abaixo com a frase “boiolas vão atrás", não é um local de acolhimento.

E não era só isso, além da maior parte dos alunos serem lgbtfóbicos, existiam professores extremamente machistas, que ao invés de dar aula, discursavam de forma extremamente lgbtfóbicas e sexistas.

A única coisa que eu sabia era que eu não podia mais me esconder, eu estava no meu limite, eu não saía de casa porque não gostava das minha roupas, não gostava do meu fisico, não gostava de mim!

Era extremamente doloroso não poder ser quem eu sou e sofrer preconceito não só na escola, mas também em algumas partes da família.

Mexendo no youtube eu vi uns vídeos sobre "diário de intercambio", pesquisei mais sobre o assunto e finalmente vi uma saída, que era:

Ter que sair do país, da escola, de casa, de perto da família, sair da minha língua nativa, para poder ser quem eu sou. Depois de muito tempo, no dia 25 de agosto, eu pude ser finalmente eu mesma. Passei 7 meses nos Estados Unidos vivendo uma realidade extremamente diferente do que era minha realidade no Brasil. Minha escola era extremamente acolhedora, e, PASMEM: eu não era uma ET na escola! Aliás, eu não era a única transexual da escola, existiam várias irmãs e irmãos lá do meu lado, e a própria escola tinha um CLUBE LGBT. Eu posso garantir que foram os melhores meses da minha vida, mas mesmo vivendo minha vida eu continuava incomodando as pessoas do meu colégio antigo, pois soube por algumas amigas de diversos comentários que rolavam sobre mim no colégio. Eu era (sou) conhecida lá como “o traveco do colégio”. O que me deixava um pouco relaxada era saber que, pelo menos eu tinha uma amiga que se levantava para me defender, mesmo sabendo que ela seria uma minoria diante de diversas opiniões transfóbicas.

Apesar de tudo de ÓTIMO que eu estava vivendo, sofri transfobia no USA, sim, mas nem se compara ao quanto de pessoas que eu tinha para me apoiar e ficar do meu lado, e ao que eu tinha de apoio no Brasil, pois a própria escola já tomava atitudes rápidas e eficientes quando acontecia bullying. O pior para mim era saber que aquilo tudo era temporário.

Quando meu intercâmbio estava acabando, eu posso dizer com certeza que foi um dos piores momentos da minha vida, eu não estava pronta para sair daquela realidade e ter que voltar para um ambiente totalmente machista e transfóbico. Não foi fácil voltar e não está sendo fácil até agora. Achar uma escola que seja pelo menos meio “mente aberta” levou 2 meses, e só agora achamos (digo achamos, porque minha família me ajudou nesse processo) uma escola que não inventou diversas desculpas para não me ter como aluna.

A minha nova escola vai aceitar meu nome social e a diretora se propôs a fazer uma reunião com os professores, o que eu achei ótimo, mas no inicio eu vou ter que usar o banheiro dos professores, porque “sabe como são os adolescentes quando alguém impõe regras a eles, né?” (isso foi dito pela diretora quando falei da resolução que garantia que eu podia frequentar o banheiro feminino de acordo com minha identidade de gênero) Mas, sinceramente, minha preocupação maior não é essa, e sim com os alunos.

Apesar de ser uma escola menor (vão ter apenas 16 alunos na minha sala e a diretora me disse que tinha UMA pessoa gay na minha sala), nada garante que eu não vá sofrer bullying lá. Algumas trans até me disseram para eu me acostumar logo com isso, mas, eu infelizmente ainda me nego a ter que me acostumar a sofrer preconceito.

Estou tentando me preparar psicologicamente para os risos e o estranhamento que vai acontecer e vai durar até minha saída da escola, afinal, travestis e transexuais não podem estar em uma escola ou em uma faculdade, só podemos estar na rua de noite nos prostituindo.

Estou tentando me preparar ao tanto de vezes que minha identidade de gênero vai ser negada, estou tentando me preparar para o tanto de vezes que não vou poder ir ao banheiro por medo, ao tanto de vezes que vão me perguntar “por que eu escolhi isso”, “por que eu sou assim”, “por que eu quero ser mulher”, e não só a isso, mas também aos, com certeza, ataques transfóbicos que irão acontecer.

Apesar de tudo, fico feliz de talvez poder mostrar para outras trans que, se eu posso, elas também podem lutar pelos direitos delas, podem lutar para estarem nos lugares que quiserem e quando quiserem, porque, se choquem, nós somos seres humanos também.

Esse texto eu quis fazer especialmente para mostrar que transfobia existe, sim! É uma coisa diária e que não é exagero meu falar que a sociedade é transfóbica, SIM! E é machista, SIM.

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8 comentários

  1. Parabéns pela sua coragem e atitude!! Infelizmente estamos em um país onde o preconceito está acima de tudo!!! ESPERO UM FUTURO MELHOR para a geração que está vindo e pra isso depende de nós corrermos atrás dos nossos direitos e ter coragem de falar realmente o que pensa e quem sou!!!!
    PArabéns!!! Que Deus te ilumine nessa caminhada!!!

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    1. A página do blog já está no ar, já podemos conversar, e se você quiser, curti lá :), muito obrigada por ter comentado aqui, fico grata pela visita no meu blog, muito obrigada por todo apoio <3
      https://www.facebook.com/transtornada.blog/?ref=aymt_homepage_panel

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    2. Muito Bom, o nosso país precisa de pessoas como você, sem vergonha de nada, apenas lutando pelo seu ideal e seu estilo de vida, PARABÉNS!!!
      Você é LINDA e merece respeito e amizades a sua altura.

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  2. Lá nos EUA deve ser bem diferente as coisas...

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  3. Como a escola age em caso de bullying transfóbico nos EUA?

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    1. Nas duas escolas em que frequentei eles chamavam o aluno na diretoria, e dependendo do caso, o aluno só levava um advertência (eles sempre ligam pros pais), ou suspensão e até expulsão, mas de qualquer modo, lá o apoio é muito grande, pois tinha até o clube lgbt, então todo mundo se ajudava e se amava <3
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